segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O círculo de Etros - 1

O garoto humilde subia as escadas do prédio antigo e praticamente abandonado em que vivia, com as mãos no bolso de um moletom cinza, sem marca, sujo e rasgado e cabeça encapuzada e ouvia no volume máximo com seus fones de ouvido baratos e um mp3 player achado na rua um hit qualquer de hip hop. Um homem alto, forte, com uma camiseta branca colada no corpo o surpreendeu com uma arma em sua cabeça, o garoto o olhou assustado enquanto a boca do cano da pistola marcava sua testa. O hip hop continuava tocando alto, enquanto o assaltante falava palavras inaudíveis devido ao som. Só haviam as rimas e a batida, até que o assaltante o nocauteou batendo na cabeça do garoto com uma força bruta inimaginável. A música desvaneceu para o garoto lentamente, sua visão confusa, olhos fechando lentamente, caiu e os fones saltaram de sua orelha. O assaltante podia ouvir o hit perfeitamente. O apanhou, fez um pouco de força puxando o fio do fone para tirar o mp3 player do bolso do moletom do garoto, procurou por carteiras, não achou. O assaltante continuou descendo as escadas lentamente, enquanto observava o mp3 com o visor quebrado, o guardava no bolso, ouvia os sons da cidade assim que chegou na porta do prédio, uma ambulância passou rapidamente emitindo um som ensurdecedor, ajeitou os fones no próprio ouvido e o hip hop já havia sido trocado por um hard rock americano qualquer, não se importou, acendeu um cigarro e seguiu pela rua do subúrbio até o terceiro beco. Virou-se discretamente e se enfiou no beco escuro, atrás de uma lata de lixo havia um moleque agachado, o assaltante o encarou, tirou do bolso um pacote pequeno de cocaína e entregou para o moleque, que se levantou e deu um tiro no estômago do assaltante. O moleque tirou do assaltante o mp3 player e o fone de ouvido com facilidade, tirou a arma do assaltante que estava morrendo e ajeitou em sua calça, na frente. Colocou os fones de ouvido, que jazia de um som agudo e estranho, mas no lugar de tentar arrumar a música, correu pelo beco até tropeçar em algo qualquer, o zumbido do fone fazia sua cabeça explodir de dor, e caiu, como em câmera lenta, ao encontrar com o chão, a arma desparou e o acertou a virilha. Urrou de dor. Um mendigo acordou assutado com os sons estridentes da noite, viu o moleque gritando e sangrando, já acostumado com cenas como aquela e com o coração corrompido pela podridão daquele mundo, deixou o moleque se arrastar e gritar até desmaiar de dor e futuramente morrer pelo sangramento da bala que o atravessou a virilha. Após um tempo o velho se levantou e pegou o mp3 player do moleque, ajeitou os fones no ouvido e tocava ali uma balada antiga - anos 50. Parou por um tempo observando aquele mp3 player com aparência infuncional tentando descobrir como diminuir o volume, mas não conseguiu. Não se importou e deu um sorriso largo e banguela pela nostalgia de sua época. Caminhou até o final do beco, observou a rua no final, o sol começando nascer logo à frente quase escondidos pelos prédios do mundo moderno. Uma lágrima escorreu em seu rosto pela primeira vez em décadas, a balada dos anos 50 estava terminando em seu mp3 player o som indo embora, a rua ainda vazia, os prédios modernos sendo iluminados pelo sol, o velho atravessou a rua sem cuidados e já não estava mais no subúrbio, mas sim num bairro de classe alta e um grande centro de mídia tecnológica da cidade. O mundo se tornou claro, seus olhos eram quase cegos para aquele cenário. Tirou os fones de ouvido, pegou o mp3 player que aparentemente tinha acabado a música e jogou no chão por não compreender mais a funcionalidade daquilo, o velho continuou caminhando.
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Continua.

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