domingo, 12 de fevereiro de 2012

Esfera de raios

Como toda pequena vila em qualquer era em que a ciência é confundida com milagres, aquela havia em seu centro algo que simbolizava a proteção de todos os fieis. Normalmente uma igreja ficaria bem no centro e seria também o ponto mais alto, representando que há algo superior. A mania dos habitantes de usar gorros e chapéus já mostrava que há algo acima de nós. Enfim, no centro daquela vila havia algo pequeno. Seria imperceptível se não fosse considerado sagrado.

A estátua de um duende guardava a lápide de um antigo rei. Não que a monarquia tivesse marcado aquele lugar, qualquer ancião com sabedoria política e espiritual poderia ser considerado rei. Mas este rei nunca ninguém conheceu, apenas acreditam que ele um dia existiu e que era cego. O folclore dizia, através das cantigas dos bardos, que o rei apenas tinha um olho, mas era na realidade uma pequena esfera que atraía os raios quando haviam grandes tempestades, e que esses raios eram descarregados em infratores. Leis? Duas: contra o roubo e após o pôr-do-sol manter abrigado em qualquer lugar com paredes, não importava, cada cantiga dizia algo diferente, mas essas duas fazem parte da cultura daquela vila ainda hoje.

Alguns acreditavam que o rei não residia naquela sepultura, mas na realidade era o pequeno duende que foi petrificado, pois havia nele somente um olho e ele brilhava. Entretanto, o duende, ou o rei, que seja, não era adorado. Mas a pequena esfera simbolizava a justiça dos deuses. Uma pequena vila não precisa de um reino ou país, também não precisam de líderes quando o poder divino é real pela fé de seus habitantes. Mas nunca provaram sobre a verdade do poder daquela esfera em relação a lei que supostamente existia. Todos apenas tinham medo.

Em uma noite, uma criança sem medo (poderia ser chamado de ignorante por todos os povos, mas esbanjava sagacidade) saiu de sua cabana. Infrator, poderia ser chamado. Sua curiosidade o matava, pensou inocente "por que a noite tão linda e estrelada nos puniria?". Afinal de contas, percebia que em grandes tempestades os raios não caíam no mesmo lugar. Aproximou-se da lápide, encarou o duende. Por um momento o olho pareceu se mexer, mas era apenas um pequeno raio que correu refletindo ao redor da esfera. O garoto ficou maravilhado, sabia que o olho brilhava, mas aquela visão à noite realmente poderia ser considerado algo divino.

Ficou hipnotizado com tamanha beleza.

Pareceu ficar parado pela eternidade, e sua visão mudara. Parecia? Estava preso no corpo de um duende de pedra enxergando a pequena vila por um olho de raios. A vila nunca lembrou do pequeno garoto, que seria um pequeno rei por sua coragem. Mas a esfera de raios, nada mais era que uma esfera aprisionadora de almas. "Se uma alma é roubada, a pessoa nunca existiu", é como o folclore rezava em cada verso. Cada alma cria seu próprio paraíso ou seu inferno, o sonho daquele garoto era observar o mundo, e observou eternamente as pessoas sofrendo em busca de seus sonhos, mas paralisadas pelo medo.

Anteriormente postado em Burrice bem polida

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