segunda-feira, 30 de julho de 2012

Ilona e os fragmentos da lua

(escrito em 2010 para o blog O grito do pierrot)
Na praia, felizes, as crianças montavam seus reinos de areia, Ilona, uma doce garota, via todos aqueles castelos como um grande reino, de fato. Um castelo maior prosperava, outros, por ventura, eram destruídos pela água do mar que avançava, todas as casinhas, que não passavam morros de areia moldados por um balde, para a garota, formava a cidade. O castelo que ali reinava, construído por seu pai, refletia à luz da lua de uma linda noite de primavera. Era uma vez...

       Vestia-se com graça, como a princesa que era, linda, ainda que fosse uma criança com um sorriso inocente e brilho nos olhos. Passava boa parte do tempo sentada na sacada de seu quarto, onde podia sempre visualizar a lua no céu escuro que não havia estrelas desde o seu nascimento, exceto por uma grande e brilhante luz, a estrela d'alva. Por que não há mais estrelas no céu? - Ela se perguntava constantemente. Mas Ilona gostava da noite, a lua era sempre cheia, e durante os dias, a lua revelava outras faces. Aquele dia era seu aniversário de 12 anos, idade ideal para a consagração como princesa regente. Uma noite inteira de festas. Ao amanhecer, a princesa observou a lua mais uma vez, mas ela parecia triste, incoscientemente, a garota culpou a grande estrela que já roubava suas noite.
        O amor de Ilona pela lua parecia incognoscível, ao vê-la aparentemente triste, seus olhos enchiam de lágrimas. Ao observar a estrela d'alva todas as noites, seu coração parecia apertar. Um bufão daquele castelo amava Ilona assim como ela ama a lua. Ambos se divertiam, a princesa tinha um carinho especial pelo serviçal e adorava o chamar de bobo. Mas o bobo era capaz de ver a alma da garota, e, por saber de sua paixão, a presenteou com um brilhante colar de pérolas incomuns. Sorrindo, e com aqueles negros e grandes olhos, Ilona agradeceu pelo colar com um beijo no rosto do bufão - ela nunca se importou muito com os modos da realeza.
        O tempo é um mistério, lento ao seus olhos e rápido para sua mente, mas as vezes ele prega peças, é incompreensível. Ilona deixara de ser criança, nunca perdia o costume de observar a lua e a estrela, e naquela noite a princesa percebeu que a lua começava desaparecer do céu claro dando espaço para um brilho mais intenso da estrela d'alva. Ilona era forte, não ignorava suas razões para a felicidade, mas aquela angustia a tomava cada dia mais. Todos os meses o bufão a presenteava, um anel, um bracelete, tornozeleira, brincos, todos com a mesma pérola do colar de consagração, tudo em busca da felicidade da menina, parecia em vão. A garota guardava todos os presentes, agradecia, chorava.
         Sempre que um ciclo se completava a primavera presenteava a princesa com uma flor-de-lua. Aos 15 anos, Ilona era uma princesa à espera de seu príncipe, tornou-se uma linda mulher de cabelos longos e chacheados como uma cascata de ouro, olhos atentos, negros. Acordou feliz a ansiosa, esperando sua flor, correu para a sacada e ela não estava la. Olhou para o céu procurando a lua - assustou, a lágrima... impossível de se conter. 
          A lua não estava mais ali.
         Olhou para seu criado-mudo e percebeu que ali havia um pequeno embrulho, sabia que era mais um presente do bobo. Abriu delicadamente, a presilha de ouro brilhava e a pedra mostrava para Ilona, era a lua, ela sabia, como em todos os outros presentes.
        O bufão realmente amava Ilona, esta que agora tinha em suas mãos toda a lua. A garota chorava sempre, não compreendia, o coração pulsando em ritmo forte, inquieto, não compreendia. Como desejava, a cerimônia para seu noivado foi ao ar livre, no jardim do castelo à noite. Não queria aceitar o príncipe que a foi escolhido. A noite era marcada pela alegria de todo reino e a escuridão do infinito, não havia mais lua, mas Ilona desta vez sorria para a estrela d'alva que brilhava forte como nunca. Ao seu lado, também observando o céu, estava o bobo, e ao olhar para seus olhos, Ilona via os mesmos brilhos da estrela. Ela sabia, o bobo roubou seu coração.

- Minha querida, vamos embora? Está ficando tarde. - Sorriu para Ilona.
- Pai, o que significa meu nome? - indagou a garota com olhos de curiosidade. Seu pai apenas sorriu, abaixou-se e a abraçou apontando a lua que brilhava forte no céu em seu alegre sorriso minguante. - Filha da lua.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Reminiscências de noites sem fim

          Minha cabeça dói, sem esperanças. Minhas memórias vagas remetem àquelas noites em que eu podia acariciar seu corpo praticamente nu, em um toque tão leve capaz de sentir o veludo de sua pele. Você sempre deitava de bruços, os seios sobre os braços, seu rosto virado para mim e os cabelos repicados na altura do ombro tampavam seus olhos, mas nunca escondiam o seu sorriso incomparável, até que caía no sono. Sempre tive minhas pequenas razões para sorrir. Pego meus fones e estouro meus tímpanos para não ouvir o que vem de fora pelo meu caminho. Minha cabeça dói, sem esperanças, minha mente perturba com frequência involuntária, mal consigo dormir nesses últimos meses. O colchão já esta fundo, não oferece conforto, o travesseiro muito baixo, fungos tomam a parede do quarto, talvez de todo o prédio, que sofre de uma infiltração desgraçada e ninguém se importa, e meu trabalho é frustrante, sempre foi, você sabe disso.
Desde a ultima vez que te vi, para mim nada mais importa, naquele mesmo dia tirei esta foto, o céu de um azul claro, infinito, a luz refletia em seus cabelos pretos bagunçados pelo vento, os olhos claros, castanhos, brilhavam olhando pra mim como se aquele momento fosse eterno e o sorriso maroto, quieto. Minha terapeuta sempre diz "você precisa criar uma rotina que te faça fugir disso", mas na realidade, eu nunca quis fugir. São estas reminiscências de noites sem fim que as vezes me acalma... conversar contigo desta maneira, deitado, observando esta foto, as vezes choro, mas... ah, não importa. Sinto falta de sua voz, suas manias. Nunca beijava meus lábios ao desejar boa noite, mas beijava meu pescoço no topo próximo ao maxilar e não falava nada, sabia como aquilo me esquentava e era o suficiente para me entregar a Morfeu. Infelizmente, a morte é o destino da vida. E agora falo sozinho, sem coragem de olhar sua foto. Já estava doente quando te conheci, e nunca pareceu fraca.
Na ultima noite, beijou-me o pescoço, você dormira em paz, acariciei seu rosto enquanto chorava com medo do que poderia vir, quando dormi - sonhos abstratos, acordei gritando, acalmou-me com um beijo no rosto e disse “não se preocupe”. Fomos aproveitar o dia, caminhamos na praça, tirei aquela foto sua enquanto estava sentada e repentinamente o vento e as folhas secas tomavam e criavam a beleza do cenário. Parecia um presságio, um sinal, e o momento registrado para esculpir a eternidade. As 18hs recolheria-se para o hospital, o transplante era necessário, mas ela simplesmente me disse “quero que vá embora, como se este fosse um ótimo encontro, que realmente foi, quero que lembre de mim, eu não posso fugir disso, e eu não quero que esteja lá.” Lutei, fiz o máximo que pude, mas o hospital não permitiu minha visita. Suas últimas palavras para mim dizia em sussurro e lágrimas “eu sempre te amarei”, seu ultimo gesto... entregar-me uma folha de caderno dobrada. Nunca o abri.
Talvez agora seja o momento. - Levantei com pressa, esbarrei forte no criado-mudo arranhando meu braço, deixando os livros e o porta-retrato com sua foto caírem, abri a gaveta com ansiedade, baguncei os papeis e o encontrei. Deitei-me rapidamente e abri aquela folha já quebradiça, lá estava: “Todas as vezes que sentir um calor chegando à você em um intenso frio, saiba que foi um beijo que lhe enviei.” Era apenas o que estava escrito, palavras que nunca saíram da minha gaveta, capazes de me tomar, ouvir meu pulsar, sentir um calor intenso, um frio eloquente... nada mais precisa existir. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

Espectador

Instiguei-me ao surrealismo. O que, por si só, já é surreal apenas pelo fato de estar numa prisão em que a única fonte de luz que tenho é uma pequena passagem para a realidade o suficiente para espiar com um de meus olhos. Uma vez que olho, e é dia, observo um sol girando em torno de um planeta vermelho, com manchas roxas e um enorme buraco que revela uma imensidão azul, cristalina. A paisagem é sempre de uma praia de águas agitadas. Quando é noite, o surrealismo se extingue, dando lugar à praia de águas calmas que refletem à luz da lua cheia um casal de enamorados nus se beijando lentamente na areia... como se a noite não tivesse fim. Deixo por alguns minutos de ser espectador daquele mundo fantástico. Encosto-me na parede e escorrego lentamente até que alcance o chão, em repouso, fecho os olhos e ignoro onde estou. Mentalizo o planeta avermelhado, sua imensidão azul e profunda, mergulho naquele mar e sinto meu corpo envolto em areia, a paisagem me revela mosaicos que mostram pinturas de guerra, desejos de paz, outrossim uma natureza exuberante. Quando volto a observar, os dias passam rápido, e a imensidão cristalina daquele planeta empalidece, o mar com o tempo acalma, como quando os dois amantes estão presentes, os ciclos se completam, eu fecho o olho e lá estou mais uma vez. Eu choro. Os anos passam. Empertiguei ao suicídio. Observo o mundo, é noite, é sempre noite agora. Em minha cela não há mais luz, e ao espiar la fora, não há esperanças. Os amantes não existem mais. Apenas vejo naquela areia, agora sem vida, assim como o mar que ali jazia, a mulher e o homem de costas para o outro, vestidos de um linho rasgado, pobre. O sol não existe mais, absorveu toda forma de vida que ali estava, o planeta, estranhamente rachado, no céu não há mais estrelas, e a lua, engolida pela areia. De minha cela, eu vejo solidão. Instiguei ao realismo.

sábado, 21 de julho de 2012

Sinestesia

Sonho todos os dias acordado,
me entregando
ao mundo onírico da sinestesia,
com a promessa
do prazeroso deslocamento de minha órbita,
buscando
a realidade em meio destes sonhos,
sentindo, forte
O abraço e o beijo deste anjo que espero aplacado
por um implacável mundo de sonhos.

Me encontraria na realidade
virtualizada
de ser bicho, verme, rato
se não tivesse a simples capacidade
em dizer e viver:

Sonhos são a concreta realidade abstrata
de sinas que se encontram e entrelaçam
buscando, entre o terror e a arte,
a realidade que lhes bate a face e mostra
o sentimento glorioso da verdade.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Catástrofe

O silêncio trafega em Ares,
o príncipe de um pântano (catástrofe).
Coaxa o sapo no silêncio,
o beijo o torna ressequido.
O sapo: príncipe sem lenço.

sábado, 14 de julho de 2012

O ser e o mar, viver(?)

O grito do mestre mostra
o mastro, caído, quebrado.

No barco [sem mastro] embarco
no barco, sem casco!

Que barco?

Do barco do mastro caído,
quebrado e sem casco.

Sem barco, afundo no mundo
calado, molhado, bizarro do mar.

No mar, molhado, bizarro, calado
qualquer barco com mastro,
caído, quebrado, afunda...
na ausência do casco.

Que barco sem casco,
com mastro caído, quebrado
é barco em que embarco?

A vida, calada, pesada, bizarra
permite que navegue sem base na água?

A vida permite ensaios do nada?

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Desperte ao delírio reinvento

Ela tinha olhos embriagados
A mente tranquila
e sonhos conturbados.
Os olhos amendoados
levemente acastanhados
Revelam
olhos como de Capitu.

Em desejos prateados
revelam sonhos!
O erotismo do encontro de coxas
a suavidade do encontro de lábios.

Embriagada com o amor
a virgem criava
     [o tabu de sua dor
de um ato puro
delinquente, excitado.

O crime lhe da ao fato
da escolha sem espaço
de crer
que a pureza de seu corpo
casto
se mostrava proibido aos prazeres da arte.

Arte, não do sexo desejado.
Ser a menina, a mulher que sonhara
exceto a dádiva do corpo arrepiado
desencarilhando sonhos prateados.

Reinventava o delírio
buscando na libido
pureza
espirito
do sonho, um sorriso

o sonho acabou.