terça-feira, 24 de julho de 2012

Espectador

Instiguei-me ao surrealismo. O que, por si só, já é surreal apenas pelo fato de estar numa prisão em que a única fonte de luz que tenho é uma pequena passagem para a realidade o suficiente para espiar com um de meus olhos. Uma vez que olho, e é dia, observo um sol girando em torno de um planeta vermelho, com manchas roxas e um enorme buraco que revela uma imensidão azul, cristalina. A paisagem é sempre de uma praia de águas agitadas. Quando é noite, o surrealismo se extingue, dando lugar à praia de águas calmas que refletem à luz da lua cheia um casal de enamorados nus se beijando lentamente na areia... como se a noite não tivesse fim. Deixo por alguns minutos de ser espectador daquele mundo fantástico. Encosto-me na parede e escorrego lentamente até que alcance o chão, em repouso, fecho os olhos e ignoro onde estou. Mentalizo o planeta avermelhado, sua imensidão azul e profunda, mergulho naquele mar e sinto meu corpo envolto em areia, a paisagem me revela mosaicos que mostram pinturas de guerra, desejos de paz, outrossim uma natureza exuberante. Quando volto a observar, os dias passam rápido, e a imensidão cristalina daquele planeta empalidece, o mar com o tempo acalma, como quando os dois amantes estão presentes, os ciclos se completam, eu fecho o olho e lá estou mais uma vez. Eu choro. Os anos passam. Empertiguei ao suicídio. Observo o mundo, é noite, é sempre noite agora. Em minha cela não há mais luz, e ao espiar la fora, não há esperanças. Os amantes não existem mais. Apenas vejo naquela areia, agora sem vida, assim como o mar que ali jazia, a mulher e o homem de costas para o outro, vestidos de um linho rasgado, pobre. O sol não existe mais, absorveu toda forma de vida que ali estava, o planeta, estranhamente rachado, no céu não há mais estrelas, e a lua, engolida pela areia. De minha cela, eu vejo solidão. Instiguei ao realismo.

Um comentário:

  1. Leiam enquanto escutam: http://www.youtube.com/watch?v=i27t5txCrwg

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