quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sem razão

O momento era quase depressivo. Estava semi-deitado em sua cama, apoiando, com postura nada exemplar, a cabeça de mal jeito na cabeceira nua; a ventoinha de seu notebook esquentava sua coxa e o monitor não tinha nada mais animado que uma barra piscando num fundo branco, vazio. Não sabia o que fazer, em certo momento, sabia que nada queria a não ser pensar, sua cabeça turbilhava em sofismas obscuros. Ao lado olhava sua estande de livros, não sentiu gosto por nenhum. Abaixo, seus jogos, e pensou, claro, em joga-los... na parede, longe. Fora do quarto, os outros cômodos estavam um caos. Ele queria não se importar. Na lateral direita de seu pescoço um músculo repuxava, contraído, lhe causando uma dor aguda - não se preocupava em como dormia nas ultimas noites. Entretanto, seu delírio era aproveitar tudo aquilo, aceitando. Ignorando. Aproveitava sua catarse, sem coesão, enquanto observava uma bela borboleta azul em seu quarto, como uma pequena flor do caos - o frio contra o corpo quente provocava calafrios semelhantes ao orgasmo - a primavera cantava em descaso, suas cores pálidas. Quase bipolar, queria chorar e rir, de dor e prazer, de tédio ou descaso sobre tudo. Observou, então, a borboleta que voava perdida e lembrou-se que nunca reparou em ver alguma borboleta à noite. Aquietou-se deitando, aquietou-se, pousando, a encarava, flor do caos. Começou digitar, versificar sua catarse: 

[Um caos, vazio
de um nada - cheio
de vazio do caos.]

Fechou a tampa do computador, virou-se e dormiu.

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